sábado, 28 de junho de 2014

Em livro sobre corrupção, juiz diz que eleições no país são compradas: 'Pagou mais, levou'

Imagem: Divulgação

O juiz Marlon Reis, membro do Movimento de Combate à Corrupção Eleitora e um dos articuladores do projeto de autoria popular que resultou na Lei da Ficha Limpa, relata práticas de corrupção em seu livro: "O Nobre Deputado - Relato chocante (e verdadeiro) de como nasce, cresce e se perpetua um corrupto na política brasileira". Um caso verídico, demonstrando os terríveis efeitos da corrupção, é o de Benedito Leite (MA), um carente município de um dos mais pobres estados brasileiros, um convênio no valor de R$ 970 mil foi firmado em 2009 com a prefeitura local para a construção de uma pequena escola. Quatro anos depois, a construção, inacabada, ruiu.

O autor relata práticas do deputado Cândido Peçanha, personagem que é fictício, mas as práticas descritas por eles são reais. "O trabalho de pesquisa foi enriquecido com a análise de provas colhidas em processos judiciais". Reis realizou entrevistas em diversos Estados brasileiros e concluiu que há um padrão na adoção de certas práticas em todas as regiões do País. Entre suas fontes, cujas identidades ele preserva, há um senador.

"Ele me explicou que o resultado de qualquer eleição brasileira já estava definido muito antes do encerramento da votação. Muito antes da abertura das urnas", relata Reis. Segundo ele, as práticas descritas reduzem a nada a vontade do eleitor individual em uma eleição. "O que conta é a quantidade de dinheiro arrecadado para a campanha vencedora, que usa a verba num infalível esquema de compra de votos. Arrecadou mais, pagou mais. Pagou mais, levou. Simples assim".

O autor divide o livro em duas partes: a corrupção na arrecadação de dinheiro para as campanhas, que é feita por meio de doação não declarada de campanha, desvio de dinheiro de emendas parlamentares e convênios, licitações viciadas e agiotagem, e as artimanhas para converter os recursos arrecadados em votos, pela compra de apoio e dos próprios votos.

"Existe o agiota bom e o mau. O bom fica com o prejuízo quando o candidato não se elege. Mas o agiota mau cobra o dinheiro com ameaças e pode cometer crimes como sequestro e até assassinato". O juiz relaciona ainda as eleições à prática de outros crimes. "Em anos de eleição há picos de ocorrências de assaltos a banco. Nos anos sem eleição a incidência é bem menor".

Márlon Reis diz que sua proposta ao lançar o livro é expor para o grande público os crimes por trás das campanhas eleitorais e, com isso, combatê-las. O livro, no entanto, causou reações negativas, o presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves afirmou que iria entrar com uma representação no Conselho Nacional de Justiça contra o magistrado. "Escrevi o livro nas minhas horas vagas. O CNJ pode fiscalizar minha atuação como magistrado mas não tem poder sobre meu pensamento e minha atividade intelectual", disse o juiz.

Valmar Hupsel Filho 
O Estado de S. Paulo 
Editado por Brasil Contra Corrupção