sábado, 1 de setembro de 2018

Marina Silva no Jornal Nacional

Candidata novamente em 2018, teve 22 milhões de votos na eleição de 2014.

Foto: Marina Silva Creative Commons - Montagem BCC Brasil Contra Corrupção

Marina Silva vem como a única mulher com chances de 2° turno a presidente e o Brasil independente de qualquer coisa que aconteceu pelo governo Dilma não pode deixar o machismo, entre outras coisas, imperar pois já vimos comentários de pessoas que não votariam na Marina por conta do que a "Dilma fez ao Brasil" mas nós viemos dizer que são pessoas diferentes, projetos de governos diferentes, momentos diferentes. Nós da Brasil Contra Corrupção estamos na internet desde 2013, não apoiamos diretamente políticos ou partidos de um modo geral, mas estamos ao lado do Brasil e todas pessoas devem ficar atentas pra isso. Preconceito jamais! Não vamos confundir as coisas.

















Transcrição da entrevista. William Bonner: E aqui estamos para receber a candidata da Rede, Marina Silva, nossa quarta entrevistada.

Renata Vasconcellos: Por favor, candidata. Seja muito bem-vinda. Boa noite. Por aqui…

Marina Silva: Boa noite.

William Bonner: Bem-vinda, candidata. Muito obrigado pela sua presença. Boa noite para a senhora. A senhora pode ocupar essa cadeira.

Marina Silva: Obrigada.

William Bonner: E vamos começar então.

Renata Vasconcellos: Exatamente. O Jornal Nacional dá sequência, nesta quinta-feira (30), à série de entrevistas, ao vivo, com os principais candidatos à Presidência da República mais bem colocados na última pesquisa Datafolha de intenção de votos.

Luiz Inácio Lula da Silva, candidato do PT, aparece em primeiro lugar na pesquisa. Mas o ex-presidente não pode dar entrevistas por determinação da Justiça. Ele está preso em Curitiba, condenado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

William Bonner: A ordem dessas entrevistas foi determinada em sorteio, com a presença dos assessores dos candidatos. Na segunda-feira (27) esteve aqui Ciro Gomes, do PDT. Na terça (28), Jair Bolsonaro, do PSL. Nesta quarta-feira (29), Geraldo Alckmin, do PSDB. E, nesta quinta-feira (30), é a vez de Marina Silva, da Rede, como dissemos.

E nessas entrevistas, o Jornal Nacional aborda os temas que marcam cada uma das candidaturas, questiona assuntos polêmicos e trata da viabilidade de alguns pontos dos programas de governo.

Na semana de 17 a 21 de setembro, os candidatos mais bem pontuados pela pesquisa Ibope ou Datafolha mais recente da ocasião também vão estar no Jornal da Globo.

Renata Vasconcellos: O tempo total desta entrevista é de 27 minutos e não pode ser ultrapassado, porque esse foi o tempo dado a Ciro Gomes, Jair Bolsonaro e a Geraldo Alckmin.

Ao fim, a candidata vai ter mais um minuto para dizer que Brasil ela quer para o futuro.

E o tempo começa a ser contado a partir de agora.


William Bonner: Candidata, em 2014, os brasileiros assistiram a uma grande dificuldade sua de criar o seu partido, a Rede. Tanto que, naquela ocasião, como candidata à Presidência da República, no fim das contas, a senhora concorreu pelo Partido Socialista Brasileiro. Dois anos depois da criação ou desse esforço de 2014, dois anos depois, sete integrantes da Rede deixaram o partido. E deixaram divulgando uma carta com críticas, uma carta aberta à população, com críticas. Eles se referiam à inexistência de posicionamento para os grandes problemas do Brasil. Palavras deles naquele documento. E, neste ano que estamos agora, a Rede tem dificuldades também. A Rede tinha quatro parlamentares; dois parlamentares foram embora. Está reduzida à metade a bancada do partido. A questão é: como é que a senhora pretende convencer os eleitores de que tem as qualidades de uma líder?

Marina Silva: Boa noite, Bonner. Boa noite, Renata, e todos que estão nos acompanhando. Primeiro, eu vejo o processo de saída das pessoas dos partidos como um processo natural numa democracia. E as pessoas que saíram da Rede são pessoas que eu continuo mantendo relação de respeito com essas pessoas e, mesmo elas estando distante da Rede, eu tenho absoluta certeza que uma coisa elas concordam comigo: os ideais que eu defendo para o Brasil são capazes de unir pessoas de diferentes partidos e pessoas da sociedade, para liderar um processo político para governar o Brasil. As divergências não são divergências. É... Irresolvível, como às vezes a gente brinca. São visões de mundo. Por exemplo, naquela oportunidade existia um grupo que achava que não se deveria votar favorável ao impeachment. Eu firmei um convencimento de que o impeachment era legal e, em função disso, criou-se uma divergência dentro da Rede. Mas eu mantenho excelentes relações com essas pessoas e tenho por elas admiração.


William Bonner: Mas a propósito disso, primeiro: o partido perdeu sete integrantes, na verdade no ano seguinte ao momento em que a senhora conseguiu finalmente criá-lo. Porque isso foi em 2015. Veio a criação, no ano seguinte eles saíram. Chama atenção, porque era um partido muito novo, e saírem sete com uma crítica pesada como essa, que eu reproduzi aqui… Por isso a pergunta. Com relação ao impeachment, o que se deu naquela ocasião foi que a senhora apoiou o impeachment, embora o partido já houvesse dito que não havia motivo suficiente para a abertura do processo. Mas na hora de votar, também na hora da votação, os integrantes do seu partido se dividiram. Eram quatro: dois votaram a favor, dois votaram contra. Mais uma vez eu insisto nessa pergunta. Isso não pode dar aos eleitores uma impressão de que falta à líder do partido e, portanto, agora candidata à presidência da República, liderança? Autoridade?

Marina Silva: Ser líder não é ser o dono do partido, Bonner. O líder de um partido, ele é aquele que é capaz de dialogar com os diferentes. E naquela oportunidade do debate do impeachment, 60% da direção da Rede foi favorável ao impeachment e dois deputados tiveram uma posição contrária. Mas quando eles entraram na Rede, eles já haviam dito: “Se tiver uma votação em relação ao impeachment, nós não temos como votar favoravelmente”. E isso tinha a compreensão de que seria assim. Quando nós firmamos a convicção de que o impeachment não era golpe, nós dissemos ao mesmo tempo: “Não é golpe, tem legalidade, mas não vai alcançar a finalidade”. Porque Dilma e Temer são farinhas do mesmo saco, angu do mesmo caroço. Ambos cometeram os mesmos crimes de caixa dois, de desvio de dinheiro público, e nós defendíamos a cassação da chapa Dilma-Temer. Os parlamentares saíram e nós continuamos com uma relação de respeito. Isso não tem nada a ver com falta de liderança, porque o líder não é o dono. E hoje no Brasil esse conceito de que o partido tem um dono, que arregimenta as pessoas, que dá ordem unida, isso é uma visão completamente inadequada de política. Hoje, a política se dá de forma mais autoral, as decisões são compartilhadas, tanto na autoria daquilo que a gente pensa, quanto na realização. E, diferentemente dos partidos tradicionais, a Rede tem uma vantagem. Geralmente, nos partidos da esquerda mais tradicional, quem sai do partido vira um inimigo. Nós, não. Nós continuamos mantendo relação. E eu tenho certeza, pode ter certeza...


William Bonner: Mas essas saídas, candidata, me permita só observar, as saídas fragilizaram, no âmbito parlamentar, a Rede.

Marina Silva: Não fragilizaram, Bonner.

William Bonner: Ela perdeu, ela perdeu representatividade.

Renata Vasconcellos: Ainda sobre a questão da liderança... A gente fala, poxa, não conseguiu liderar nesse tema, dentro do partido, como liderar no país, né?

Marina Silva: Mas veja bem, nós vamos governar um país dialogando, inclusive, com essas pessoas que saíram. Eu posso te dizer, eu duvido que se eu ganhar a Presidência da República Federativa do Brasil, essas pessoas vão sabotar o meu governo. Eu duvido que uma pessoa como o Suplicy vai sabotar o meu governo. Liderar não é ter todo mundo embaixo do mesmo guarda-chuva.

Renata Vasconcellos: Mas como a senhora pode garantir isso?

Marina Silva: Olha, ninguém nunca experimentou isso. Aliás, alguém experimentou, o Itamar Franco. O Itamar Franco, quando assumiu a Presidência da República numa situação parecida com essa, ele não tinha uma base, e ele conseguiu juntar pessoas de diferentes partidos e governar e fazer uma transição. Eu vou ser um governo de transição.

Renata Vasconcellos: Então, ainda falando...

Marina Silva: Durante quatro anos, eu vou governar esse país para que a gente possa combater a corrupção, fazer ele voltar a crescer e ser um país justo e bom para todas as pessoas viverem.

Renata Vasconcellos: Então, justamente sobre essa questão da governabilidade, é preciso, fundamental, ter liderança. Ainda então na questão da liderança, uma crítica frequente dos seus adversários é sobre a sua postura diante de temas polêmicos, mas importantes para o país como, por exemplo, a reforma da Previdência. Quando a senhora é questionada sobre esses temas, a senhora sempre defende a necessidade de um debate, mas não apresenta uma proposta concreta. Eu me lembro na sabatina da GloboNews, já tem umas três semanas, a senhora, diante dessas questões, sempre respondia, chegou até a responder numa sequência de três vezes: “É preciso debater, tem que debater, tem que se debater”. Como candidata à Presidência da República, por que não assumir posturas?


Marina Silva: Mas eu assumo a postura.

Renata Vasconcellos: Posições.

Marina Silva: Sim. Se existe uma pessoa que assume posições, essa pessoa sou eu. Eu defendo a reforma da Previdência e tenho as diretrizes para essa reforma. Quais são as diretrizes? Que a gente possa encarar o problema da idade mínima, que a gente possa transitar para...

Renata Vasconcellos: Mas no seu programa de governo, justamente a questão da idade mínima, ela é posta de uma forma muito vaga.

Marina Silva: Mas...

Renata Vasconcellos: Não existem detalhes importantes, por exemplo, como a idade mínima...

Marina Silva: Mas nenhuma proposta de...

Renata Vasconcellos: A nova idade mínima para a aposentadoria. Não é importante isso para os brasileiros saberem, por exemplo?

Marina Silva: É importante a gente dizer que vai debater a idade mínima, mas tem gente que se incomoda com a ideia de debater, porque a gente se acostumou com os pacotes. A gente vem da cultura do pacote, um em cima do outro, do povo brasileiro. Quando alguém diz que vai debater, vai dialogar, parece estranho, mas numa democracia, isso é o normal.

Renata Vasconcellos: Mas esses oito anos não foram suficientes para a senhora amadurecer posições tão importantes quanto essas?

Marina Silva: Sim, amadurecemos. Nós temos uma proposta, vamos encarar o problema da idade mínima...

Renata Vasconcellos: Mas mesmo a ...

Marina Silva: A gente está tendo pessoas que estão conseguindo viver muito mais, isso é um debate que está acontecendo no mundo inteiro. E eu vou mais além: no problema da idade mínima, nós vamos manter a diferença entre homens e mulheres. A Universidade Federal de Minas Gerais fez um estudo de que 80% das atividades domésticas são feitas por mulheres.

Renata Vasconcellos: (...) já existe essa diferença.

Marina Silva: Enquanto a gente tiver uma cultura em que as mulheres têm sobrecarga, elas têm o direito de se aposentar mais cedo, mas isso nós vamos enfrentar. Desde 2010 que eu defendo, 2010, quando ninguém debatia isso, que a gente tinha que transitar para um regime de capitalização e contribuições. Agora nós sabemos que com o problema do déficit público, essa transição tem que ser bem construída, mas devemos ir para um regime de capitalização e combater os privilégios. A Previdência não pode permitir que no Executivo você tenha aposentadorias que são muito altas, no Legislativo você tenha aposentadorias muito altas, no poder Judiciário, comparada à iniciativa privada, que é em torno de R$ 1,5 mil. Isso são diretrizes gerais. Agora, o governo Temer, sem debater, discutindo apenas com um lado, disse que ia fazer a reforma e não fez.


Renata Vasconcellos: Mas sobre essa questão já se foi bastante debatido. Será que…

Marina Silva: Sim, mas é um problema muito complexo, não se pode achar que algo que mexe com a vida de tantas pessoas pode ser feito assim a toque de caixa. Numa democracia, a gente tem que se dispor a dialogar com empresários, dialogar com trabalhadores, com os especialistas, e quando a gente entende do processo político, a gente sabe que resultado é tão importante quanto o processo.

Renata Vasconcellos: É verdade, mas isso não significa que seja...

Marina Silva: A reforma foi inviabilizada você sabe por quê? Foi inviabilizada porque o governo esqueceu o processo, esqueceu o processo na reforma trabalhista...

William Bonner: Candidata…

Marina Silva: Se ele tivesse atendido todas as questões que eram colocadas na reforma trabalhista...

William Bonner: É que tem outras questões…

Marina Silva: Talvez hoje nós não tivéssemos a situação de ambiguidade.

William Bonner: Agora, candidata, a respeito de reforma previdenciária e idade mínima, ficou claro aqui, os eleitores só vão saber das idades mínimas que a senhora pretende propor, depois da senhora eleita.

Marina Silva: Mas vou debater...

William Bonner: Mas eu queria mudar….

Marina Silva: Tenho o compromisso de debater, isso eles não precisam se preocupar.

Renata Vasconcellos: Novamente debater, debater, debater...

William Bonner: Deixa eu, deixa eu só voltar…. Mas candidata... É que eu queria avançar na entrevista.

Marina Silva: Mais isso é importante. Sabe por quê? Sabe por quê, Bonner? Mas, olhe só, presta atenção. Vamos lá. Olha só...

William Bonner: A gente vai deixar de abordar outros temas importantes para a senhora e para os eleitores. É por isso que eu estou pedindo...

Marina Silva: É que isso é importante. Mas, veja bem, você acabou de dizer que os meus eleitores…

William Bonner: A senhora explicou…


Marina Silva: Não, expliquei, mas você parece que continua com dúvidas. E eu quero dizer...

William Bonner: Eu não tenho dúvida, não.

Marina Silva: A Dilma e o Temer não apresentaram nada, não têm legitimidade, não têm credibilidade, jogaram um pacote na cabeça do povo brasileiro discutindo só com os empresários.

William Bonner: Vamos em frente, então.

Marina Silva: Eu estou dizendo, quem votar em mim sabe que eu vou ouvir especialistas, vou ouvir empresários e trabalhadores para a gente poder fazer algo que é importante de resolver.

William Bonner: Candidata, vamos falar…

Marina Silva: A reforma da Previdência.

William Bonner: Candidata, vamos falar... Eu queria falar agora de outro assunto...

Mariana Silva: Vamos.

William Bonner: A gente vai entrar agora na seara da corrupção. Na eleição passada, a senhora obteve 22 milhões de votos e aí, no segundo turno, a senhora declarou apoio ao candidato do PSDB, Aécio Neves, que se tornou, depois daquilo, réu. Réu por corrupção passiva e por obstrução de Justiça. O que a senhora tem a dizer aos eleitores que votaram em Aécio Neves por causa da sua recomendação?

Marina Silva: Hoje, com as informações que vieram pela Lava Jato, não teria declarado o meu voto ao Aécio. E acho que muitos que votaram no Aécio Neves…

William Bonner: Mas já havia o Aeroporto de Cláudio, candidata. Durante a eleição, isso foi debatido. O Aeroporto de Cláudio era um problema, um problema da campanha de Aécio Neves.

Renata Vasconcellos: Antes de a senhora declarar o apoio, não é?

William Bonner: Sim.

Marina Silva: Mas veja bem… É, nas eleições de 2014, acho que a maioria das pessoas conscientes acabaram votando em alguém. Nós mesmos, aqui cada um de nós votou em alguém. Mesmo com tudo que tinha, alguém escolheu um candidato de segundo turno. Mas eu tenho certeza que muitos de nós aqui não teria votado se tivesse as informações da Lava Jato e isso é válido...


William Bonner: Se tivesse as informações. É, não era a Lava Jato, mas já havia, como eu disse, o aeroporto. Deixa eu dizer, nessa mesma eleição...

Marina Silva: Mas todo mundo votou, Bonner, todo mundo votou.

William Bonner: Nessa mesma… É, bom…

Marina Silva: Eu hoje não votaria.

William Bonner: Aécio Neves perdeu a eleição.

Marina Silva: Não votaria nem em Aécio nem em Dilma. A Lava Jato mostrou que todos eles praticaram crime de caixa 2.

William Bonner: Aí chegamos à próxima questão. Porque nessa mesma eleição, a senhora era candidata à vice e a candidata à vice de Eduardo Campos. E se tornou a candidata à presidência, após a morte dele. No ano passado, Eduardo Campos foi citado em delações da Odebrecht, em delações da JBS, por ter recebido propina em campanha. A senhora não desconfiou de que havia dinheiro demais na campanha do Partido Socialista Brasileiro. Se eleita, a senhora vai ter que formar um governo. Os eleitores gostariam de saber se a senhora, nesse período, desenvolveu mecanismos mais eficientes de avaliação das pessoas com quem a senhora pretende se aliar. Porque no caso de Aécio e no caso de Eduardo Campos, a senhora não teve como saber antes que havia esses problemas. Para formar a sua equipe a senhora vai estar segura? Tem mecanismos de evitar que se repita essa situação?

Marina Silva: Com certeza.

Renata Vasconcellos: Quais mecanismos?

Marina Silva: Com certeza. Aliás, você tocou em um assunto aqui... Há quatro anos atrás, o Eduardo estava sendo entrevistado por vocês. No dia seguinte, nós o perdemos para sempre numa tragédia. E eu quero aqui, mesmo com as denúncias que existem, dizer o seguinte: a Justiça está investigando e como ele está morto, não tem como se defender, e muito menos, se porventura for culpado, pagar, porque já não temos mais a sua vida, eu não tenho compromisso com erros, não tenho. Mas hoje eu estou muito bem calçada depois da Lava Jato.


William Bonner: A senhora tem hoje esses mecanismos?

Marina Silva: Sim, com certeza. Eu fui a única candidata, até agora, a ir até a Transparência Internacional, e eles produziram mais de 70 propostas para combate à corrupção. Um trabalho denso, e eu me comprometi que não só vou adotar uma série de medidas que estão ali naquelas contribuições... Porque eu sou a única candidata que diz que apoia a Lava Jato, que defende o Ministério Público.

William Bonner: Não. Vários fazem isso, candidata.

Marina Silva: Não. Mas, na prática, eu fiz dois programas do meu partido de dez minutos defendendo a Lava Jato.

William Bonner: Bom, mas a prática… Mas veja, candidata… A prática, a prática e o discurso às vezes não se encaixam.

Marina Silva: Não, no meu caso se encaixa.

William Bonner: Então vamos ver o que está acontecendo…

Marina Silva: Porque 32 anos de vida pública...

William Bonner: Eu a convido apenas a senhora a analisar e responder a questão sobre as coligações estaduais.

Marina Silva: Sim, vamos lá, vamos lá...

William Bonner: É um problema nessas eleições bem claro. Não apenas para um candidato. Mas veja a sua situação. A senhora critica, sistematicamente, os partidos do chamado centrão. O centrão, os partidos dos centrão têm 41 investigados na Lava Jato, que a senhora apoia. E esses partidos do centrão têm essa fama de praticar o famoso “toma lá, dá cá”.

Marina Silva: É mais do que isso, é corrupção braba mesmo.

William Bonner: Bom… Corrupção braba, chame como a senhora preferir. A senhora reforça essas críticas. A senhora também chegou a dizer que naquele ano de 2014, na última eleição, o PT e o PSDB não estavam disputando a Presidência da República. Eles estavam disputando a presidência de uma organização criminosa. Uma declaração forte essa, né? Pois bem. Nesta eleição agora, o seu partido, a Rede, ele tem coligações, ele participa de coligações com o PT em alguns estados, com o PSDB em alguns estados, e com os partidos do centrão em outros tantos estados. E aí eu vou levar à pergunta: diante destas coligações, o eleitor não pode achar que aquelas críticas fortes que a senhora fez eram insinceras? E até oportunistas?


Marina Silva: Não, porque o que atesta a minha vida e o meu compromisso são mais de 30 anos de vida pública. Deputada, senadora, ministra. Sem nenhum envolvimento em caso de corrupção. No plano nacional, não estamos coligados com nenhum desses partidos.

William Bonner: Mas em cada um desses estados?

Marina Silva: Não, não é em cada um, não. São em alguns estados.

William Bonner: São muitos, candidata.

Marina Silva: Não, não são.

William Bonner: Olha, eu poderia…

Marina Silva: Vou te dizer, no Rio Grande do Sul, no Rio Grande do Sul.

William Bonner: É um deles.

Marina Silva: Não, eu vou falar, eu mesma falo para você. No Rio Grande do Sul nós estamos coligados com um jovem que foi prefeito de Pelotas e esse jovem, sobre ele não pesa absolutamente nada. Eu sou inteiramente coerente. O que eu tenho dito? Eu tenho dito...

William Bonner: Eu tenho aqui uma lista, candidata. Se a senhora quiser, eu posso dar essa lista rapidamente.

Marina Silva: Vamos lá, vamos lá.

William Bonner: Vamos lá, a senhora, o seu partido, a Rede está coligada com o MDB, de Michel Temer, no Espírito Santo. Em três estados brasileiros, a Rede está coligada com o Partido dos Trabalhadores: em Tocantins, em Roraima e na Paraíba. Em quatro estados, o seu partido está coligado com o PSDB: Maranhão, Amapá, Goiás e Rio Grande do Sul, que a senhora mencionou. E em sete estados, com partidos do centrão: Tocantins, Roraima de novo, Paraíba de novo, Amapá de novo, Goiás, Rio Grande do Sul e no Rio de Janeiro. São muitos estados em que a Rede está associada, está coligada, por assim dizer, a partidos que a senhora critica muito veementemente.

Marina Silva: Sabe… Sabe qual é….

William Bonner: Isso não lhe parece incoerente?

Marina Silva: Veja, olhando da forma como você coloca, passa essa impressão ao telespectador. Mas as pessoas que conhecem a minha trajetória, o que eu tenho dito? Pessoas boas... Aliás, tem gente que até está me copiando agora… Pessoas boas, desde 2010 eu digo, existem em todos os partidos e que nós não podemos fazer recortes partidários.


William Bonner: Ouvimos isso ontem aqui do candidato do PSDB.

Marina Silva: Isso. É, você está dizendo quem está copiando. E que pessoas boas existem em todos os partidos e que, se a gente for olhar para os partidos, fica muito difícil qualquer tipo de diálogo político. Mas a gente tem que olhar para as pessoas, para a trajetória das pessoas. Pegando o caso do jovem, candidato ao governo do estado do Rio Grande do Sul.

William Bonner: Ah, mas não vamos particularizar, candidata…

Marina Silva: Mas eu não vou desabonar o jovem.

William Bonner: Não é isso.

Marina Silva: Eu estou dizendo que ele é uma pessoa de bem. Se você for para o Amapá, qual é a denúncia de corrupção contra o candidato? Não tem.

William Bonner: Não se trata disso. Não se trata disso.

Marina Silva: Não é com partidos, Bonner, é que…

William Bonner: É que a senhora fundou um partido...

Marina Silva: Eu fundei um partido...

William Bonner: Exatamente para se diferenciar. Era esse o discurso.

Marina Silva: Mas esse é o diferencial.

William Bonner: Para se diferenciar daquela salada de partidos, aquela bagunça.

Marina Silva: Isso.

William Bonner: Mas aí chega numa eleição como essa...

Marina Silva: Não, não, mas o recorte não é partidário.

William Bonner: Mas a Rede está mergulhada nisso, agora.

Marina Silva: Não está, não está, Bonner, não está. Pelo contrário, nós criamos um partido, já dizendo desde o início: “Não vamos sacralizar partidos”. Pessoas boas têm em todos os partidos. E se eu ganhar, eu vou governar com os melhores de todos os partidos. Esse é um discurso que eu falo desde 2010.

Renata Vasconcellos: Eu estou aproveitando esse seu...

Marina Silva: E conversei com essas pessoas e elas não desabonam a nossa aliança, ela é programática, baseada em trajetórias de vidas. E a Rede é um partido pequeno. É engraçado que as pessoas cobram numa hora: “Mas a senhora não tem alianças, não tem coligação”. Quando eu faço alianças com aqueles que sobraram dessa miscelânea de corrupção, aí as pessoas me atiram em rosto.


Renata Vasconcellos: Mas ainda falando então sobre coerência. Quando a senhora...

Marina Silva: Não tem nada a ver… Sim, pode falar.

Renata Vasconcellos: Quando a senhora saiu do PV, a senhora saiu sob a justificativa de que precisava manter a coerência. Sete anos depois, a senhora escolhe justamente um integrante do PV para ser seu vice na chapa na candidatura à Presidência da República. O Partido Verde de hoje é o mesmo de 2011. Até o presidente do partido, inclusive, é o mesmo. A senhora desistiu da coerência?

Marina Silva: Continuo coerente, porque o Eduardo Jorge… Nós nunca tivemos divergências. A minha saída do PV tinha a ver com a visão de processo, em relação a que eu queria muito que o PV se tornasse um partido em rede, mas a cultura política da direção do PV entendeu que não. E eu criei um partido em rede, mas em termos programáticos não há divergências em vários aspectos.

Renata Vasconcellos: Candidata, junto com o vice não vem o partido todo?

Marina Silva: Como?

Renata Vasconcellos: Junto com o vice não vem o partido também?

Marina Silva: Mas o processo interno do partido é completamente diferente, eu não posso querer impor a cultura partidária da Rede aos demais partidos. O importante é que em muitos aspectos nós temos convergências e essas convergências, aliás, são as mesmas que me fizeram ser candidata em 2010, não tem incoerência nenhuma. Eu e Eduardo temos muitas convergências, algumas divergências, mas isso é normal em uma democracia.

Renata Vasconcellos: Então, ainda falando sobre divergência...

Marina Silva: Nós do Partido Verde e a Rede fizemos uma aliança inteiramente programática, inclusive com o PV reconhecendo a soberania do meu programa em várias questões que haviam diferenças. Isso é típico da democracia. A Rede é um partido em rede, porque assim se conformou, e eu não vejo incoerência nenhuma. Incoerência sabe o que é? É fazer aliança por tempo de televisão, é fazer aliança em troca de dinheiro para enganar a população com marqueteiro vendido a peso de ouro, isso é que é incoerência.


Renata Vasconcellos: Candidata, para a gente conseguir então ir adiante, abordar outros temas. A bancada ruralista tem crescido no Congresso. Inclusive, cientistas políticos têm dito que ano que vem ela vai ser ainda maior. Como é que a senhora acha que seria possível conquistar votos desses parlamentares para o seu programa ambiental?

Marina Silva: Discutindo com eles em termos programáticos.

Renata Vasconcellos: Mas é uma bancada ruralista. Não são poucos os que temem e os que acreditam que o seu programa prejudica o agronegócio, que é tão importante para a economia do país.

Marina Silva: É que tem muita gente que trata o agronegócio como se ele fosse homogêneo, e não é. Hoje tem muita gente que já está fazendo o dever de casa, tem muita gente que quer fazer. Eu estive ontem lá no encontro da Confederação Nacional da Agricultura e fui muito bem recebida pelas minhas teses, pelas minhas ideias de uma agricultura de baixo carbono, de financiar, cada vez mais, a agricultura ABC, que introduz novas tecnologias para evitar...

Renata Vasconcellos: Mas sobre essas críticas que existem em número grande de parlamentares dentro da bancada ruralista que é uma... É um fato, né? Inclusive deve ser ainda maior no Congresso ano que vem. O que que a senhora tem a dizer sobre isso?

Marina Silva: Olha, eu fui ministra do Meio Ambiente e dialogava com todos os partidos e com todas as bancadas.

William Bonner: Mas havia críticas à lentidão de licenciamento ambiental na sua gestão.

Marina Silva: Não é verdade Bonner, não é verdade. Essa crítica...

William Bonner: Candidata, a senhora foi advertida inclusive pelo então presidente Lula. A senhora foi admoestada.

Marina Silva: Advertida? Admoestada? Bem, isso faz parte da lenda e do processo de desconstrução. Eu, quando entrei no Ministério do Meio Ambiente, tinham mais de 40 hidrelétricas que não tinham licenças. Aquilo que foi competência do Ibama, nós limpamos a pauta e o que não dava para fazer nós dissemos claramente aos empreendedores: “Não dá para fazer”. Como foi o caso de Tijuco Alto. Você quer saber de uma coisa? As licenças mais difíceis foram na minha gestão.


William Bonner: A senhora não tem autocrítica. Não, eu digo especificamente à sua gestão nesse período do governo Lula, porque se a senhora disser: “Não, eu fiz o que era para ser feito”, é um recado que a senhora está dando para parte do eleitorado de dizer o seguinte: Olha, aquelas pessoas que querem que o licenciamento ambiental seja feito para proteger o meio ambiente, mas que seja feito com mais celeridade, para respeitar também a urgência da necessidade de geração de empregos com esses investimentos, nessas obras todas…

Marina Silva: Mas isso foi feito Bonner, isso foi feito. Olha...

William Bonner: A senhora... é o recado que a senhora dá. A senhora ficou satisfeita com aquele ritmo que a senhora imprimiu ao licenciamento ambiental….

Marina Silva: É que as pessoas ficam falando de algo que, não é o seu caso, é claro, que elas não conhecem. A hidrelétrica de Santo Antônio Jirau foi dada durante a minha gestão, um dos licenciamentos mais difíceis. Agora vamos a outro mais difícil ainda, que estavam tentando licenciar desde o Império: a transposição do Rio São Francisco, a BR-163. Você sabe por que foi feito? Porque tinha capacidade técnica, uma equipe que tinha condições de passar para a opinião pública a certeza de que aquilo não estava sendo feito por encomenda. Eu fui ministra durante cinco anos e meio e nunca ninguém me fez pressão para que eu desse uma licença que não tivesse base técnica. Tudo que nós fizemos foi de acordo com a lei. Agora, se você me disser: “Marina, você acha que você tinha a estrutura adequada?”. Eu vou te dizer que não. E por que não tínhamos? Porque, infelizmente, é uma visão de que investir na Diretoria de Licenciamento, investir na Diretoria de Combate a Crimes Ambientais…

William Bonner: O seu tempo está acabando, candidata…


Marina Silva: Isso é algo que eles encaram como custeio, e não é. Eu vou ser presidente do Brasil.

William Bonner: Então…

Marina Silva: E vou mostrar que é possível integrar meio ambiente e ecologia, criar um novo ciclo de prosperidade.

William Bonner: Eu vou aproveitar a deixa, então...

Marina Silva: Pode falar.

William Bonner: Para pedir à senhora, porque o seu tempo acabou, como nós explicamos desde segunda-feira (27), o tempo de 27 minutos é o tempo do entrevistado até ele ganhar esse minuto final para mandar sua mensagem para os eleitores, dizendo qual é o Brasil que a senhora quer para o futuro.

Marina Silva: O Brasil que eu quero para o futuro é um Brasil aonde nenhuma pessoa tenha que passar pela humilhação de não ter o trabalho para sustentar a sua família. Eu sou mulher, sou negra, mãe de quatro filhos, fui seringueira, empregada doméstica, me alfabetizei aos 16 anos e eu sei que muita gente acha que pessoas com a minha origem não têm capacidade para ser presidente da República. Eu estou aqui trazendo mais que um discurso. Eu trago uma trajetória, o compromisso de construir um país que seja justo e bom para todos, para empresários, para trabalhadores, para a classe média, para jovens, para mulheres. Muitas vezes as pessoas me admiram como uma exceção, mas eu não quero um país de exceção, eu quero um país de regras. Eu serei presidente da República com o seu voto para que esse país seja economicamente próspero, socialmente justo e ambientalmente sustentável.

William Bonner: Candidata, muito obrigado pela sua presença, pelos seus esclarecimentos aos telespectadores do Jornal Nacional.

Mariana Silva: Muito obrigada.


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